domingo, 6 de maio de 2018

Livro-inspiração: "A bruxa não vai para a fogueira nesse livro", de Amanda Lovelace


LOVELACE, Amanda. A bruxa não vai para a fogueira nesse livro. Rio de Janeiro: Leya, 2018. 208 páginas.




Livros podem despertar dentro de nós múltiplas sensações e sentimentos, e talvez a melhor de todas seja a “inspiração”, que nada mais é do que uma vontade profunda de fazer algo. Alguns livros podem nos inspirar a ter uma vida diferente ou a enxergar o mundo com outros olhos, ter mais autoconfiança e autoestima. Foi um livro chamado “A casa do Escritor” que me inspirou a cursar Letras, e fiz questão de revelar isso à autora quando a conheci em uma Bienal – pois livros têm essa capacidade mágica, por isso é sempre importante prestigiar os autores que nos permitem mergulhar nessa magia.

Inspiração é uma palavra forte, dessas que reverberam sentimentos bons. Por isso decidi trazer para o blog livros que de uma forma ou de outra são inspiradores e trazem mensagens dignas de serem compartilhadas com o mundo. E o primeiro deles é o inusitado “A bruxa não vai para a fogueira nesse livro” de Amanda Lovelace.

Logo de inicio, a primeira coisa que se repara nessa obra é que tudo, absolutamente tudo, aspira à força e poder feminino. Com um fundo branco e letras escarlates, toda a estrutura do livro nas passa a nítida sensação de estarmos diante de letras de fogo e sangue; na capa, a imagem de uma bruxa segurando um coração em chamas é a metáfora clara do que vamos encontrar pela frente: um livro nada convencional. Esqueça o romantismo dos contos de fadas e  mergulhe no universo real das mulheres, personificadas em bruxas que salvam suas próprias peles ao escapar das fogueiras, lutando pela própria liberdade com o poder do fogo pulsante em suas veias.


Confesso que tive uma surpresa logo nas primeiras páginas, pois há uma dedicatória muito peculiar a uma tal “garota em chamas”. Trata-se de ninguém menos do que Katniss Everdeen, da série literária Jogos Vorazes, que no segundo livro da trilogia “Em Chamas” usa o vestido de fogo citado por Amanda Lovelace nesse poema/dedicatória. Katniss é, sem sombra de dúvidas, uma das personagens mais intensas do universo da literatura contemporânea, detentora de uma personalidade indomável e audaciosa. Para quem leu a distopia Jogos Vorazes, é impossível não se inspirar na história da “garota do distrito 12”, pois Katniss, ao lutar por liberdade, quebra todo o sistema político imposto pelo governo dominante de sua nação, questionando a estrutura social alienada que sacrificava crianças como forma de entretenimento e poder. Sim, é uma personagem complexa e que representa muito bem a mensagem que a autora desse livro quer nos passar. Particularmente, Katniss é uma das minhas personagens literárias favoritas - e imagino que de Amanda Lovelace também.


Em seguida, temos também um “alerta inicial” que nos explica que o livro contém temas pesados como abuso de crianças, estupro, traumas, distúrbios alimentares, etc. Ele é dividido em quatro partes, sendo: o julgamento, a queima, a tempestade de fogo e as cinzas. Cada parte contém uma série de poemas que falam sobre opressão e violência cometidas contra as mulheres, usando de metáforas como “caça as bruxas” e “fogueiras” como um paralelo às perseguições que as mulheres – ainda – sofrem.



Antes de “o julgamento” há duas profecias que nos lançam o seguinte questionamento: e se as mulheres revidassem os abusos? - é basicamente esse o efeito do livro ao chegarmos ao último ato, mas vamos por partes. O primeiro capítulo funciona como uma contextualização, discorrendo sobre uma série de situações em que as mulheres se sentem desprotegidas, com medo de violência sexual, e inferiorizadas apenas por serem o que são: mulheres.

O capítulo que vem a seguir “a queima” instiga o sentimento de revolta e lança a primeira fagulha, questionando os relacionamentos abusivos, e os paradigmas sociais que doutrinam as mulheres a serem frágeis, tolas e submissas. Os versos são como gritos de “basta!”, incentivando-nos a não encarar situações de machismo e violência com naturalidade. E quando a revolta atinge seu ápice, temos “a tempestade do fogo” como um grito de guerra, chamando-nos para o campo de batalha para enfrentarmos nossos medos e inseguranças, lutando de frente contra um sistema que tenta nos reduzir a um mero sexo frágil.

 É ai que entra a falida romantização da princesa de contos de fadas, que na versão atualizada se liberta da sua antiga imagem de menina desprotegida e insossa, e se transforma na rainha-bruxa que é dona de sua própria liberdade, salvando a si mesma de qualquer “torre” ou “fogueira” que ousem lhe condenar. A metáfora da bruxa cai como uma luva nesse sentido, pois considera-se como tal qualquer mulher que não se encaixe no estereótipo de uma moça submissa ou o “arquétipo de Maria”: pura e virginal.

Por séculos esse padrão de conduta funcionou como estratégia para manter as pessoas do sexo feminino em um patamar de sub-gênero e inferioridade, mas depois de tanto tempo esse sistema arcaico tornou-se inaceitável, por isso que a figura da bruxa – antes condenada como um ser maligno e cruel – agora é a personificação de todas as qualidades fortes que uma mulher não deve ter vergonha de possuir: como coragem, determinação, autoestima, força, astúcia, audácia, ousadia, confiança, etc. Pois as bruxas possuem aquilo que os homens sempre temeram: a insubmissão. 

Katniss sendo citada novamente!

Em “as cinzas”, o ultimo capitulo nos traz as consequências da primeira fagulha lançada inicialmente, que agora se alastrou incendiando todo o sistema. O fogo, antes usado para aniquilar o poder feminino, agora é o combustível que dá forças às mulheres, que se unem como irmãs e lutam por sua própria liberdade e autonomia. O sentimento de sororidade é parte importantíssima nesse capítulo final, ressaltando que não há mais espaço para rivalidades fúteis entre mulheres: temos é nos unir, nos apoiar e nos proteger. Proteger nossas crianças contra abusos sexuais, proteger nossa integridade física; apoiar umas às outras em situações de violência e assédio nas ruas; unirmos-nos contra as injustiças no mercado de trabalho e nos ambientes acadêmicos. 

Sororidade vem do latim “sóror”, que significa “irmãs”, baseado no conceito de união e empatia entre mulheres. Esse conceito basicamente nos diz: juntas somos fortes.



Por fim, concretizando as duas profecias que vimos no começo da obra, “as cinzas” finalizam o livro com um sentimento de renovação e renascimento através do poder transformador do fogo. A mensagem final é de revolta e luta, mas também é de esperança, o que nos inspira a nunca abaixarmos a cabeça diante das dificuldades, do preconceito e, principalmente, do machismo. A frase estampada na contra-capa do livro “queime todos os que tentarem queimar você” resume em poucas palavras que devemos sempre revidar e reagir diante de qualquer situação que tente nos condenar.


Amanda Lovelace não usa métrica ou rimas em suas poesias, e além de escrever com toda a liberdade poética que lhe convém, ainda nos convida a escrever e manifestar nossos sentimentos através da arte, tal como ela fez nesse livro. Pois qualquer pessoa pode ser poeta ou escritor; desde que escreva, tudo é possível no universo das Letras.

Com essa mensagem final, encerro aqui a minha recomendação desse livro fascinante. 

E você, já leu esse ou outros livros de Amanda Lovelace?

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