sexta-feira, 4 de maio de 2018

Apocalipse, ontem (de Diego L. Diniz)




Tenho um fascínio imenso por coletâneas de contos - fascínio antigo, diga-se de passagem. Pois diferentemente dos romances, que narram do começo ao fim um mesmo enredo, acompanhando a história dos mesmos personagens, os livros de contos abrem um leque de possibilidades a cada capítulo, nos levando a múltiplos cenários e personalidades variadas. Um livro de contos é como uma conversa informal entre amigos, onde cada um relata uma experiência avulsa de sua vida: veja bem, alguns podem narrar um fato impactante, outros preferem um episódio de seu cotidiano ou uma relato antigo de seus antepassados. Tudo é possível quando falamos de histórias.
  
    Guardo na memória até hoje os primeiros contos que li de Stephen King, aos 12 anos, em um livro monstruoso chamado “Sombras da Noite”. Um livro de terror, percebe-se, do tipo que faz nosso estômago revirar num asco tão profundo a ponto de querermos abandonar determinados contos pela metade. O mestre Stephen sabe pregar peças na nossa mente, com toda a certeza. Também me aventurei, aos 19, nos contos ácidos de Bukowski em “Crônicas de um amor louco”: um deles – não direi qual – me fez rir tanto que tive que deixar o livro de lado porque não simplesmente não conseguia parar de rir. E o conto que veio em seguida era tão pesado que fez com que eu me sentisse culpada por ter achado graça numa história tão absurda e banal - eu não falei que livros de contos narram histórias por vezes completamente distintas umas das outras? A melhor parte desse gênero é o elemento surpresa e as quebras de expectativa – duas características que tanto amo.


Pois bem, hoje venho escrever sobre um livro que recebi com muito carinho e cujas histórias levaram meu imaginário a viajar por ares de melancolia, reflexão e mistério. Trata-se de “Apocalipse, ontem” de Diego L. Diniz. Vamos lá!

De início, ressalto aqui o primeiro ponto que chamou minha atenção no livro: a riqueza de detalhes nas descrições de cada cenário, arquitetura e ambientação. Tão logo começamos uma história e facilmente somos absorvidos pela atmosfera que nos é narrada, enxergando as ruas e prédios ao nosso redor e sentindo a aflição de determinados personagens. Isso sem contar as belíssimas ilustrações feitas pelo próprio autor.

Ilustração do conto "Terceiro dia"

Nas primeiras páginas temos o angustiante “Edifício Memorial” para nos dar boas vindas ao livro, num clima de perseguição e suspense típicos de contos de horror. O desfecho aqui dá um frio na espinha, quase como uma prévia do que vem a seguir em “Eis o beijo de Tosca”: este, com um enredo aparentemente inocente, apresenta no final uma revelação inusitada e sangrenta. Sem revelar detalhes do enredo, arrisco duas palavras-chave para definir as motivações da personagem: vingança e traição.

“Traição” que por sinal é tema do próximo conto “Radiovizinhos”, um dos meus favoritos dessa coletânea, narrado num tom mais ameno do que os anteriores e com certo ar de sarcasmo. Vemos aqui o desabrochar da relação extraconjugal de um marido, paralela à difícil tarefa de sua esposa ao cuidar dos filhos doentes. É um conto frustrante por ser tão realista, nos fazendo refletir sobre os motivos fúteis que podem levar um homem à traição, bem como sua naturalidade e hipocrisia para tal. Partindo desse ponto, temos em seguida uma nota de erotismo nas histórias “Casual” e “Sem avareza”, o segundo, inclusive, tem um desfecho cômico e ao mesmo tempo reflexivo sobre o perigo de se debulhar em muitos pecados numa só noite, e as conseqüências disso tudo na vida de um desafortunado rapaz.

Gostaria de destacar também um dos contos que mais me surpreendeu até aqui, chamado “Pela manhã”. Nele mergulhamos em uma atmosfera pacata e típica de cidade de interior, acompanhando os passos do protagonista com um marasmo deliciosamente familiar. A decoração da casa carregada de história, o pão quentinho na mesa, o café, o sol nascendo, o trem passando lá fora. Tudo é tão nítido como se estivéssemos, de fato, lá. E quando finalmente entramos em perfeita sintonia com o ambiente, eis que uma ruptura abrupta quebra a nossa serenidade matinal e nos joga em um desfecho, digamos... assustador. Confesso que fiquei confusa e incrédula no final desse conto, olhando para o ultimo parágrafo com expressão de “Não é possível que isso tenha acontecido!”. Convenhamos: não existe sensação mais deliciosamente ácida do que uma boa quebra de expectativa.      

Eu não poderia deixar de citar mais um dos meus favoritos “Pombos”, cujo trecho se encontra na contracapa do livro. Aqui temos uma situação típica de um casamento de fachada, seguindo os moldes de um matrimônio forjado por conveniência. Tudo isso, no entanto, se torna ainda mais interessante quando analisado sob a ótica de criaturas singulares e observadoras do comportamento humano: os pombos.

Por fim, temos o conto que deu origem ao título do livro “Apocalipse, ontem”. Para mim, o mais enigmático de todos, o conto em questão destoa dos demais por seu caráter essencialmente filosófico com um viés metafísico, tendo o fim dos tempos como ambientação e tema principal. O “Tempo” tem caráter primordial nessa reflexão, ponderando sobre o desdobramento de cada indivíduo e suas motivações em uma realidade pós-apocalíptica, na qual ele próprio, o Tempo, deixa de existir em seu sentido convencional, levando consigo o “Espaço” e a “História”.

Logo, com a ausência desses três fatores, tudo o que conhecemos perde o sentido, tal como governos e convenções, bem como o desejo por poder. A visão apocalíptica discorrida no conto revela um ponto de vista novo diante de um tema considerado por muitos como assustador. O narrador, no entanto, revela não saber como obteve todo esse conhecimento, digamos, “transcendental”, e questiona se até mesmo isso seja conseqüência de sua percepção intrínseca da realidade, uma vez que o discurso também é contido pelo Tempo, bem como as histórias das pessoas que ele tem acesso, mesmo sem de fato conhecê-las. Logo, partindo desse raciocínio, não seriam os contos do livro também contidos pelo Tempo? Fica ai uma reflexão: a realidade é algo universal ou é um fator individual para cada um?

Em suma, adorei a experiência de mergulhar nesse universo do “Apocalipse, ontem”, o que me rendeu muitas surpresas e reflexões. Deixo aqui a minha recomendação para todos vocês e o meu agradecimento à Amanda Souza por ter me presenteado com esse livro incrível! 

 
Ilustração de "Edifício Memorial" 

"Por trás de cada invocação, uma imprecação. No sorriso da caridade, a insídia do interesse pessoal. Nas aparências da bondade, apenas a sujeira das almas corrompidas pelos desejos mundanos." (Conto "Oratório", p.49)



Um comentário: