terça-feira, 1 de maio de 2018

A hora da Estrela, de Clarice Lispector



LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1979. 204 páginas.




Sempre tive imensa aversão à escrita de Clarice Lispector; o que, diga-se de passagem, é quase um crime para alguém que cursou Letras - considerem essa resenha como uma absolvição do meu pecado literário. Confesso que conhecia algumas personagens e fragmentos de um livro ou outro, mas nunca havia de fato lido uma obra inteira. Porque existe uma diferença muito grande entre apenas “conhecer” um livro – seja através de resumos ou conversas – e você realmente mergulhar na leitura. E esse deslumbramento eu não havia tido. Ainda.

Na adolescência arisquei ler “A Hora da Estrela” duas vezes, e nas duas tentativas abandonei o livro nas primeiras páginas. Só agora, aos 21, resolvi dar uma nova chance ao meu velho e desgastado livro de 1979 – vindo das profundezas do sótão do meu avô. Assim, considerando a leitora estranha que sou, achei que uma ocasião especial como essa merecia um local igualmente especial, por isso fui ler “A Hora da Estrela” no jardim na minha faculdade, num sábado, em plena 7 horas da manhã. E o que era para ser apenas um passatempo antes da minha aula da pós-graduação, acabou por se transformar numa experiência única e um tanto peculiar.

 Conheci, nas páginas amareladas e carcomidas do livro, o desespero de um tal Rodrigo S.M. ao narrar a história de uma mocinha de 19 anos. E logo de cara me dei conta que esse é o tipo de livro cujo “enredo” não é o mais importante, e sim, o “modo” como esse enredo é contado. Cada parágrafo carrega uma reflexão profunda sobre a vida, a sociedade e a existência de cada um; basicamente é a simplicidade da vida em contraponto com a complexidade do ser humano. Cada tema levantado pelo narrador se expande como uma cadeia raízes, formando uma infinidade de ramificações e dando vazão a novos assuntos. Sim, a linha de raciocínio de Rodrigo S.M. é basicamente a de pegar temas simples e transformá-los em algo transcendental - e vice-versa. Interessante, não?  Depois que eu me acostumei a esse “sistema” de narrativa, ficou muito mais fácil de compreender a história. Se você ainda não leu “A Hora da Estrela”, fique atento à esse detalhe!


Pois bem, em meio à inúmeras divagações sobre o que o levou a escrever tal história, Rodrigo nos apresenta à Macabéa, uma jovem nordestina nascida no sertão de Alagoas, órfão e criada pela tia beata que a maltratava sem motivos, privando-a de qualquer carinho ou consideração. Moça simples e ignorante, nossa protagonista estudou até o 3º ano do primário e fez curso de datilografia – para o seu grande orgulho – indo trabalhar num escritório no Rio de Janeiro. Macabéa tinha o que o narrador chama de “ausência de si em si mesma”, como se a moça ignorasse a razão de sua própria existência, vivendo fora do mundo e fora de si. Não era uma moça bonita ou atraente, e por não ter o costume de tomar banho, sua pele era encardida e manchada. Rodrigo compara Macabéa à um “café frio” e desinteressante, ao mesmo tempo em que exalta seu amor por ela, afirmando que ele, somente ele, via o real encanto da moça.

 “Só eu a vejo encantadora. Só eu, seu autor, a amo. Sofro por ela” (p.34)

Nesse ponto é interessante citar que o narrador nos passa a sensação nítida de estar obcecado por sua personagem, estabelecendo um sentimento paixão e possessividade sobre a moça. Parece loucura, mas se levarmos em consideração que o livro nos fala sobre a “construção” da obra em si, acaba fazendo todo o sentido. Quem tem o costume de escrever histórias e criar personagens que o diga! É muito fácil nos apaixonarmos por nossas criações, e é bem isso que se passa com nosso narrador, Rodrigo. Não se esqueça que ele também é um personagem.

Sobre a personalidade de Macabéa, nos cabe observar que a simplicidade da moça beira o exagero da resignação, cujos únicos luxos se restringem a pintar as unhas de vermelho e ir ao cinema uma vez ao mês. Observe o trecho: 

“Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.” (p. 44). 

Macabéa, nesse ponto, exalta seus únicos atributos – ser datilógrafa, virgem e gostar de coca-cola – como uma particularidade inata à sua pessoa, o que torna a narrativa ainda mais triste e desesperançosa. Sentimos pena da moça.

Todavia, Macabéa nos prega uma peça, pois tão logo nos sentimos tristes pela sua infeliz resignação, ela vem e apronta uma história engraçada, que muda todo o rumo da narrativa. Veja bem, ao fingir uma dor de dente, Macabéa mata trabalho e aproveita a solidão de seu quarto, desfrutando o tempo de ócio para dançar e se sentir livre. É o momento mais contente de sua vida, pois é a primeira vez que “se encontra consigo mesma”, tendo consciência de sua própria individualidade. Percebe-se que nesse ponto há uma ruptura no livro, pois nossa protagonista finalmente sai do “modo automático” e toma uma iniciativa – pequena, porem substancial – de tomar as rédeas de sua própria existência. Fascinante, não é? Admito que nessa parte eu fiquei empolgadíssima.

Nesse mesmo dia, nossa jovem protagonista conhece seu primeiro – e único – namorado: o operário Olímpico. Homem rude e desagradável, Olímpico tinha um estranho fascínio por sangue e pelo ofício dos açougueiros; ele, inclusive, havia matado um companheiro enquanto ainda vivia no sertão. Mas esse segredo Macabéa nunca soube. A imagem que Olímpico apresentava para a moça era a de um homem ambicioso que queria ser deputado, e Macabéa, ingênua, achava fascinante esse sonho grandioso do namorado. Abro um parêntese aqui para falar sobre o relacionamento raso dos dois, que de namoro só tinha o nome. O fato de nunca ter sido bem tratada na vida fez com que nossa protagonista tolerasse o tal namorado com bastante naturalidade, pois Olímpico e só lhe fez comentários desagradáveis do começo ao fim – “fim” porque o namoro não durou muito, para a sorte de Macabéa. 

“Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer.” (p.73)

 - disse Olímpico ao terminar o relacionamento. Cabe ressaltar que ele terminou com Macabéa para firmar um relacionamento com sua amiga, Glória.

Glória, por sua vez, é uma personagem “descolada” e esperta, diferente de Macabéa em todos os sentidos, em especial por ser gorda, alegre e agitada; um contraste visivel com a profunda magreza melancólica da protagonista. É Glória quem recomenda à Macabéa uma cartomante excêntrica chamada Madama Carlota, uma antiga prostituta. Já na reta final do livro, Macabéa vai até o escritório da tal cartomante e lá é muito bem tratada (coisa rara na história), ouvindo muitas histórias contadas pela mulher. Quando ela tira as cartas para Macabéa – uma surpresa! – dizia ali que um futuro radiante esperava pela nossa protagonista, digna de um estrangeiro loiro de olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos. Macabéa fica bêbada de felicidade, e sai em estado de êxtase do apartamento de Madama Carlota.

O que acontece a seguir, devo lembrar, é muito semelhante ao desfecho do conto “A Cartomante”, de Machado de Assis. Se você não conhece, leia! É curtinho, mas vale a pena. Enfim, voltando à história, Macabéa sai do apartamento da cartomante e é atropelada por um Mercedez-benz. Não há um futuro radiante e nem um namorado estrangeiro; tudo o que resta à Macabéa é o abraço da Morte – o personagem favorito do narrador, como ele mesmo diz. Rodrigo S.M. ainda faz uma longa divagação sobre a morte e a tragédia da personagem, o que nos deixa de coração aos prantos nesse finalzinho do livro. Acredito que não há coisa pior do que a morte de um protagonista nas últimas páginas de sua história, e a morte de Macabéa despontou no ápice de sua esperança por uma vida melhor – vida melhor que nunca veio. Ela se tornou uma “estrela” no momento de sua morte. Nada pode ser mais triste do que isso.   

Para fechar com chave de ouro só posso afirmar uma coisa: esse é o tipo de livro que você lê uma vez na vida e nunca mais esquece. Minha edição é antiga, desgastada e com as páginas soltas, carcomidas por traças, mas com toda a certeza valeu a pena ter mergulhado em mais um leitura tão envolvente e apaixonante. Fica aqui a minha recomendação desse clássico da nossa literatura nacional: “A Hora da Estrela”.


"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." (Clarice Lispector)

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