sábado, 26 de abril de 2014

Prosa: Realidade Surreal


O tempo se desdobra. O tempo se embaralha. Centenas de anos vêm à tona em pensamento, sem que eu possa controlar minha mente. Vejo memórias desconexas e confusas. Sinto a profundeza das lembranças despertando dentro de mim. São minhas e também não são. Também não sei mais quem sou, ou onde estou. Simplesmente vejo e sinto imagens e sensações. O tempo não existe mais para mim.


E nada do que existe agora parece real. Real? Realidade? Onde está a barreira que divide o real do imaginário? Eu não poderia dizer mesmo se soubesse. É confuso demais lidar com as palavras; prefiro sentir.


Sei que estou parada, sentada em algum lugar distante, mas de alguma maneira sei que também estou andando. Posso sentir a grama úmida sob meus pés, o vento balançando meus cabelos, a névoa fria. Respiro o aroma de alecrins. O verde ao meu redor é intenso como não existe em nosso mundo. Nosso? Meu? Onde estou? Me desespero. Sinto que algo me puxa com força, mas não quero ir. Não quero. A grama, o vento, os alecrins. Tão distantes! Me deixe ficar!


Sinto o frio abaixo de minhas mãos. Estou agarrada à cadeira onde sento. Meus dedos estão vermelhos. Me sinto sufocada. 

Eu vejo uma sala, e ao mesmo tempo a não vejo. Em minha mente, estou num lugar sombrio. Está quente e ouso vozes distantes. Vozes. Tontura, vertigem. Minha visão está embaçada. Não sinto cheiro de nada. 


Olho assustada para cima e para os lados. Estou presa dentro de um quadrado cinzento. Há janelas, há portas, mas não a saída. Onde estou? De quem são essas cabeças à minha frente, sentadas e enfileiradas em carteiras? Elas ouvem alguém. Eu também ouso essa voz, mas não compreendo o que fala. Está lá na frente. Está andando. Andando. Eu a sigo com os olhos, e me sinto tonta. Vertigem. Eu também estou numa sela. Ao mesmo tempo. 


O mundo dentro de mim entra em colapso. A grama verde virou um azulejo monocromático, branco, e o vento fresco de alecrins morreu antes de me encontrar de novo.  Estou olhando para mim para mim mesma agora: perdida, sozinha, sufocada. Todos ao meu redor parecem tão sóbrios, tão... frios. Eu também me sinto fria. Morta... Eu fujo em pensamento, mas não saio do lugar.


Então eu me vejo realmente saindo de lá. Não diga que estou fugindo, eu sei que estou. Por isso eu corro, mas os corredores me perseguem, e as escadas querem me derrubar. Olhares de reprovação, sorrisos de deboches. Quem são eles? Parem de me olhar! Meus cabelos grudam em meu rosto. Estou chorando.


Sozinha, num canto que proclamei meu, um suspiro escapa do fundo de minh'alma. Então desabo no chão. Apoio a cabeça nas prateleiras cheias de vida e conhecimento, como se a energia delas pudessem me reequilibrar. Paro de tremer. Seco as lágrimas. Em minhas mãos eu vejo uma folha, um lápis e um vazio. Uma inquietação. E quando escrevo, o silencio se rompe.

 As palavras ventam e tem cheiro de alecrim. Cada letra derrama magia, em cada parágrafo mil anos de luz. Luz, em mim, novamente. Luz!

 Lembranças, memórias e jardins de flores.
 Mergulho dentro de mim mesma, e não sei se quero sair.






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