segunda-feira, 14 de maio de 2012

Amor e Casamento na Idade Média


Durante o começo da Idade Média, o amor não tinha praticamente nenhuma importância para a realização de um casamento. 

Foi com a participação da Igreja que o amor teve a chance de manifestar-se através do consentimento, apesar deste não ser fator determinante para a realização ou não do casamento. Um tanto paradoxal esta proposição, pois a Igreja, ao mesmo tempo que começou com a ideia de consentimento, também proibiu o amor carnal no casamento.

E, mesmo a Igreja sendo talvez a maior influência do mundo medieval, nem todos seguiam seus dogmas e foi, graças a isso, que o amor pôde aparecer mais e mais no decorrer do tempo.


SÉCULOS IX e X
Nos séculos IX e X as uniões matrimoniais eram constantemente combinadas, sem o consentimento da mulher que, na maioria das vezes era muito jovem. Sua pouca idade era um dos motivos da falta de importância que os pais davam à sua opinião. Diziam que estavam conseguindo o melhor para ela. Essa total falta de importância dada à opinião da mulher resultava muitas vezes em raptos.

Como o consentimento da mulher não era exigido, o raptor garantia o casamento e ela deveria permanecer ligada a ele, o que era bastante difícil pois os homens não davam importância à fidelidade. Isso acontecia, talvez principalmente pelo fato de a mulher não poder exigir nada do homem e de não haver uma conduta moral que proibisse tal ato.


Outras vezes o rapto serviu como um meio de fugir dos casamentos arranjados. A jovem que tinha um casamento já marcado forçosamente, sem seu consentimento, com um homem que sequer conhecia, simulava um rapto fugindo com seu homem desejado e acabavam por casarem-se e, mais tarde, o fato às vezes chegava a ser reconhecido pelas famílias. 

É inegável aí a existência do atractio, uma atração entre o casal. A fuga de um casamento forjado era algo grave para as famílias, pois envolvia muitas riquezas, portanto deveria haver um forte motivo para os fugitivos.

As etapas de um casamento normal, que não envolvia raptos, nos séculos IX e X eram as seguintes:


Petitio - pedido da noiva pelos pais do noivo
Desponsatio - o entendimento das famílias sobre a ligação de seus filhos
Dotatio - entendimento sobre o dote
Traditio - entrega da jovem ao seu noivo pelos pais
Publicae nuptiae - cerimônia do casamento
Copula carnalis - união carnal


Essas etapas eram feitas entre os pais. O desponsatio pode ser entendido como um noivado, mas sempre sem consentimento algum nessa época, pois os filhos eram ainda crianças, com cerca de sete anos de idade, sem idade para decisões. 

Os acertos sobre o dote eram feitos no dotatio e também ficava estipulado que, após as crianças crescerem e atingirem a idade de tomar suas próprias decisões, se o casamento não se realizasse por rebeldia de algum, haveria uma espécie de multa paga pela família da pessoa que desistisse do casamento. 

Isso constituía mais uma pressão sobre os futuros noivos para a realização do casamento. Portanto, casamento era uma questão resolvida entre os pais (homens, sem as mães).


A entrega da jovem (traditio) acontecia anos após as três primeiras etapas, quando as crianças já tivessem atingido a idade de aproximadamente doze ou quatorze anos. Então a cerimônia era feita e após isso realizava-se a união carnal. Havia também a possibilidade do casamento ser arranjado entre o pai da noiva e um cavaleiro, que seria o futuro noivo. 

Nessa época, a Igreja ainda não participava efetivamente dos casamentos. Devido a essa falta de regulamentação eclesiástica, teólogos e pastores carolíngios davam maior importância ao ato sexual, isto é, à última etapa do casamento, a copula carnalis.

Pode-se perceber neste período da Idade Média a falta de importância do amor no casamento. Sem uma instituição efetivamente participativa na vida social das pessoas - como a Igreja será nos séculos seguintes - , ou sem uma regra estabelecida, o casamento era feito de qualquer modo, apenas obedecendo à sequência do petitio à copula carnalis, caso não houvesse um rapto.

O mais importante aí era casar-se com alguém de mesmo nível social ou mais alto para poder aumentar as riquezas das famílias e, consequentemente exercer maior poder.

A Igreja e os casamentos


A Reforma Gregoriana (1050 - 1215) mudou rapidamente o comportamento da Igreja frente a vários aspectos, inclusive os casamentos. Aconteceram várias discussões para decidir as concepções que a Igreja teria acerca de certos assuntos.

No Concílio de Latrão (1215) foi decidido que o casamento seria um contrato público, ideia defendida por Pedro Lombardo. Porém a intenção era vista como aspecto mais importante, como dizia Graciano. Um exemplo disso é que os casamentos realizados secretamente passaram a ser considerados válidos, apesar de ilegais, isto é, a intenção aí realizava o matrimônio, mesmo sendo um meio ilegal.

Outra atitude tomada pela Igreja durante as reformas, relativa ao casamento, é estabelecer-se como a única instituição a legislar e julgar sobre a matéria. Assim, várias concepções laicas são extintas para dar lugar à concepção eclesiástica. Uma dessas mudanças é a condição do casamento. No final do século XI e no século XII o consentimento mútuo do casal passa a ser exigido pela Igreja.


A pressão do casamento para as mulheres

A negação de um homem por parte da noiva poderia ser censurada facilmente e, mesmo contra sua vontade, acabava casando-se, por ordem do pai. Por isso, um meio mais eficaz para a mulher escapar de um casamento arranjado era seguir a vida religiosa. "Negavam [o casamento] por amor a Deus". 

Esse tipo de negação do casamento era "motivo de louvor, pois desejava a castidade", algo de muita importância para a Igreja. Mas mesmo alegando o amor a Deus, muitas dessas mulheres também acabavam se casando.
Portanto, quando os pais da noiva estavam convictos da realização do casamento, não havia como escapar. Nem por vontade própria, dizendo que amava outro, nem através da religião, alegando amor a Deus. Pode-se, assim, perceber a permanência da falta de importância dada ao amor, seja entre cônjuges ou o amor de uma mulher por Deus.

As heranças e o casamento entre familiares

Relativo à herança observa-se o grande número de casamentos entre primos. Isso visava a concentração das riquezas de uma mesma família. Esse tipo de casamento exigia também, por parte das famílias, não ter muitos filhos, pelo mesmo motivo: não dissipar a riqueza da família. 

Quando houvesse mais de um filho, somente o primogênito tinha parte na herança, enquanto que os demais eram incentivados ao celibato transformando-se em monges ou cavaleiros.
Porém a Igreja estabeleceu proibições ao casamento entre parentes, que ia a graus extremamente distantes, o que dificultava ainda mais a escolha do cônjuge. Após essa regra imposta pela Igreja pôde-se observar muitos casamentos realizados logo nos primeiros graus de consanguinidade permitidos, o que revela que o costume de casar parentes mais próximos possíveis não desapareceu e, apesar disso tudo, não se sabe até onde essas proibições foram levadas a sério. 

Contudo, pode-se perceber aí a dificuldade de acontecer um casamento simplesmente por amor.


Outra concepção da Igreja: reprimir o mal

Segundo tal concepção da Igreja, “reprimir o mal” era uma forma de controle da devassidão dos leigos. Ela condenava o prazer nas relações sexuais e, portanto, considerava o casamento um mal menor, afinal dentro dele aconteciam as relações, porém, ao menos, sem prazer, apenas visando a procriação. Outra imposição da Igreja era a proibição das relações sexuais nos dias sagrados. 

Para conseguir essa proibição a instituição utilizava-se do medo das pessoas alegando que as crianças com anomalias eram concebidas em tais dias: "os monstros, os estropiados, todas as crianças doentias, sabe-se muito bem, foram concebidos na noite de domingo".


O contraste da relação entre marido e mulher

De acordo com a Igreja, a alma e o corpo da mulher pertencem a Deus e a partir do momento em que ela se casa, o marido toma posse apenas do corpo, podendo, assim, fazer o que bem entender com ele. Já as mulheres não tomavam posse do corpo do marido, só lhes devia obediência total, o debitum, mais especificamente o dever de ter relações com seu marido.
 Apesar de contrariar a Igreja - pois esta condenava as relações sexuais que não objetivavam a reprodução - se a mulher recusasse o debitum ao marido, este teria um motivo para praticar o adultério, o que seria ainda mais grave. "O amor do marido por sua mulher se chama estima, o da mulher por seu marido se chama reverência"

Nota-se aí um grande contraste nas relações entre marido e mulher. Um não deveria sentir o mesmo que o outro. Assim como as tarefas diárias, os sentimentos também eram divididos diferentemente entre homens e mulheres.


Além de tudo, as jovens recém-casadas saíam de casa com pouca idade para viverem com um homem que sequer conheciam e muitas vezes tinham que sujeitar-se às mais variadas violências e humilhações, eram repudiadas e abandonadas. Isso acontecia devido à inexperiência e desconhecimento completo das mulheres que não sabiam até que ponto deviam sujeitar-se aos maridos.

Os casos em que a mulher negava ter relações sexuais com o marido e este respeitava a postura de sua esposa eram motivo de risadas. O homem que não tinha relações com sua mulher nunca poderia ser considerado um sênior.

E o amor nisso tudo?


O amor que deveria existir entre o casal, segundo a Igreja, era o amor ao próximo, a caridade, sem o desejo carnal. No século XII São Jerônimo dizia que "aquele que ama a sua mulher com um amor demasiado ardente é um adúltero".

 Na realidade, casamento era uma instituição que visava a estabilidade de uma sociedade, servindo apenas para a reprodução e união de riquezas, assim, dando continuidade à estrutura. A partir do momento em que o amor aparece no casamento, esses pilares (reprodução e união de riquezas) passam a um segundo plano, ameaçando toda essa estrutura. Quando um casamento acontece simplesmente por amor, não há mais interesse a priori em reprodução ou união de riquezas.
Porém, segundo clérigos e monges, apesar das proibições da Igreja, a afeição, a ternura, o amor e a felicidade entre os cônjuges não eram prejudicados. Partiam do exemplo da Virgem Maria e José que, mesmo sem terem relações foram felizes, apenas amando-se, cooperando-se e sendo fiéis um ao outro. 

O amor verdadeiro, na opinião de monges e clérigos menos radicais, é aquele em que o sexo está na posição de subordinado, não prioritário, pois esse é o amor que aproxima-se da caridade, portanto, de Deus. O amor, a afeição, eram muito mais uma consequência do casamento do que uma causa.



Em relação às mulheres medievais, podemos concluir que:


• A mulher era vista como submissa pois era temida. Considerava-se que a mulher era o pecado, a carne fraca.
• O casamento não tinha nunca o objetivo de unir pessoas que se amam, ou o objetivo de dar prazer a alguma das partes, e sim o objetivo da procriação.
• A mulher quando se casava simplesmente trocava de homem ao qual tinha que se submeter (de pai para agora marido).

• A prostituição era considerada um “mal necessário”, pois curava vontades de jovens e clérigos, mas ainda assim as prostitutas eram marginalizadas da sociedade.
•  As doutrinas diferentes à religião católica pregavam que a mulher poderia ter os mesmos direitos que os homens, por isso eram calorosamente perseguidas pela Igreja.
• À mulher cabia as responsabilidades domésticas, exceto no caso de camponeses e classes mais baixas, que deveriam acompanhar seu marido no trabalho feudal.

Curiosidades:

- Paquera


Por volta do século 12, surgiu o chamado amor cortês. Na corte, o cavaleiro levava o lenço da mulher amada. Mas era uma amor platônico e infeliz - como os casamentos eram arranjados por interesses econômicos, o cavaleiro e a dama quase nunca ficavam juntos. Os noivos arranjados muitas vezes só se conheciam por meio de retratos pintados a óleo.

- Homossexualidade


A relação homossexual era chamada sodomia e era crime com pena de morte, além de ser considerada heresia pela Igreja - os homossexuais poderiam até ser queimados em fogueiras. No Oriente, era aceito - mas na surdina. Por exemplo, em exércitos em guerra, era preferível a relação entre soldados do que recorrer a prostitutas.


- Prostituição


Como os homens não podiam ter prazer com as esposas, com quem só transavam para procriação, a procura por prostituas era grande. Ao mesmo tempo em que eram malvistas pela sociedade e pela Igreja, as profissionais do sexo tinham que doar metade de seus lucros ao clero - foi o que instituiu o papa Clemente II (1046-1047).



Um comentário:

  1. Muito bom, só acho que depois dos relatos, essencialmente deveria ser colocada a referencia bibliográfica para dar credibilidade as informações.

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