quarta-feira, 23 de julho de 2014

A Vida em Atlântida

Atlântida era uma ilha muito grande, que apenas ao norte estava ligada ao continente. Era bem protegida por encostas de rochedos íngremes e promontórios que avançavam bem para dentro do mar. Ao sul havia poucos lugares onde navios podiam ancorar.

O reino era dividido em duas partes, habitado por povos distintos: o povo do norte e o povo do sul. O norte chamava-se Embla – provavelmente em honra à senhora da Terra, de igual nome. A parte sul era denominada Ulad. Viajantes e mercadores designavam o reino apenas de “Pais dos Gigantes” ou “Pais dos Dragões”. Conservemos, porem, o nome Atlântida, pelo qual o pais submerso se tornou conhecido.   

A Natureza de Atlântida

A natureza dessa grande ilha era de uma beleza incomparável, tanto ao norte quanto ao sul. Havia montanhas altas e colinas arredondadas, circundadas por águas, que na última era glacial ainda estavam cobertas por uma camada de gelo impenetrável, assim como verdejantes colinas e vales, terras férteis, lagos, rios, riachos e extensos pântanos, onde vicejavam samambaias gigantes e outras plantas aquáticas.
Uma parte dessa ilha era atravessada por cavernas de estalactites que conduziam às profundezas da Terra... Nascentes de água quente que brotavam do solo sob alta pressão, existiam espalhadas por toda a ilha. Essas nascentes formavam riachos. Eram chamados “nascentes da beleza”. Todos os recém-nascidos de Atlântida eram levados até essa nascente e banhados na água morna. De acordo com a crença dos habitantes daquele tempo, a água não só proporcionava beleza, força e saúda, mas também dava ao ser humano algo do seu límpido brilho...

Os Animais

    Esse maravilhoso mundo abrigara outrora também inúmeros animais. Muitos deles estão extintos. Seria difícil enumerar a multiplicidade das espécies. Havia cervos gigantes, alces, búfalos, ursos e cavalos de pelo comprido que ainda traziam uma reminiscência de chifre na teste, como lembranças de seus “lendários” antepassados, os unicornes. A esses juntavam-se muitos animais menores, como texugos, linces, porcos selvagens, lobos, raposas, veados, castores e mais ainda. Seguem aqui algumas:

 Dragões voadores

 Dragões não constituíam nenhuma raridade naquela época. Contudo, dragões que espontaneamente e até com alegria carregassem seres humanos nos ares, apenas existiam no reino de Atlântida.
Eles habitavam as cavernas das montanhas e as que se tinham formado, no decorrer do tempo, entre os altos rochedos costeiros. Viviam também entre as fendas de rochas e entradas de grutas. Somente os dragões que serviam a um “amo” moravam em sua proximidade. Aliás, numa confortável gruta de pedras, especialmente construída para ele.
Cada dragão atendia a um determinado chamado de corneta, conforme fosse treinado por seu amo. Contudo, de modo singular, somente as fêmeas toleravam seres humanos em seu dorso. Voar em dragões constituía uma experiência única, com a qual cada homem sonhava desde a juventude. Considerando o grande número desses animais que viviam naquela época no pais, havia relativamente poucos “voadores” de dragões. 
Os responsáveis por isso eram os próprios dragões, pois comportavam-se de maneira muito peculiar na escolha do homem a que estavam dispostos a reconhecer como amo. Sim, os dragões escolhiam seu amo, e não o contrário.
Vejamos: um homem que desejasse voar em dragões, tinha de procurar uma fêmea de dragão. Isso demorava alguns dias ou semanas, conforme a região onde habitasse. Tendo encontrado o animal, tinha de aproximar-se dele. A melhor hora para isso era à tardinha, quando os dragões estavam sentados, satisfeitos, perto de suas grutas. O visitante humano, naturalmente, não vinha de mãos vazias. Trazia consigo gulodices que esses animais comiam com especial prazer. Eram doces feitos de mel enrolados em folhas.

O dragão observava com a cabeça bem erguida e sem o menor movimento a aproximação do estranho. O cheiro e tudo mais que emanava desse estranho já há muito tinha chegado até ele, tendo sido “examinado”.

Se o resultado do “exame” fosse favorável, o dragão movia seu pescoço comprido de um lado para o outro, como num cumprimento, enquanto suas asas vibravam levemente.
Ao ver esses sinais, o estranho aproximava-se rapidamente do animal, passava a mão carinhosamente pelo pescoço escamoso e ofertava-lhe os doces de mel, que eram aceitos de bom grado. A união do pacto estava então selada, perdurando geralmente por toda a vida.
Totalmente diferente era o comportamento do dragão se o “exame” fosse desfavorável para o pretendente. O animal baixava o pescoço, tocando o solo com a cabeça. Também não havia vibração em suas asas. Para o candidato à amizade do dragão, esse era um momento amargo. Fora recusado, sendo obrigado a voltar sem nada conseguido.
Para os seres humanos de hoje, esse relacionamento com os dragões parecerá fantasioso e improvável. Esquecem, no entanto, que naquele tempo ainda não havia medo e animosidade entre o ser humano e o animal. Ambas as espécies viviam pacificamente, lado a lado, como criaturas que possuíam direitos iguais. Os seres humanos de então ainda não roubavam dos animais a possibilidade de existência, destruindo as florestas e sujando os rios... Hoje, ninguém pode forma uma ideia de como outrora os animais amavam as criaturas humanas, sentindo-as seres superiores.
Isso valia para todos os animais. Os mais selvagens búfalos e cavalos deixavam-se demar facilmente, e modo que podiam ser utilizados como animais de montaria.

Lobos

Os lobos ocupavam posição de destaque na Atlântida. Eram muito afeiçoados às pessoas, sendo considerados uma espécie de animal domestico, da mesma forma que os cães atualmente. Acompanham crianças maiores quando estas faziam excursões para colher ovos, frutas ou cogumelos. Mesmo entre o capim mais alto os lobos encontravam os ninhos das perdizes. As crianças só precisavam retirar os ovos dos ninhos e encher suas cestinhas. Porem nunca retiravam tudo. Sempre deixavam um ou mais ovos nos ninhos.
Ao fim das tardes, os lobos separavam-se de “suas famílias humanas”, voltando no dia seguinte pela manhã. Só permaneciam afastados quando tinham cria. Às vezes os lobos adultos vinham com seus filhotes, tão logo estes pudessem caminhar. De certo modo, para apresentá-los aos seus amigos, os seres humanos, aos quais serviam.
As crianças, de bom grado, gostavam de brincar com os gnomos, pois podiam vê-los. Estes, contudo, desapareciam mui rapidamente de visão, não se deixando apanhar. Por isso elas apegavam-se a seus lobos, aos mansos corvos brancos e a seus estranhos animais de montaria, que pareciam constituir-se de um cruzamento entre cervo e rena.

Pássaros

No que diz respeito aos pássaros, viviam lá em número extraordinários, destacando-se os corvos brancos, os cisnes cinza-claro, águias, abutres, cegonhas, gansos e patos silvestres. Havia também muitas e diferentes espécies de galinhas, aves parecidas com os faisões de hoje, perdizes, etc. Além disso, viviam nos campos e florestas inúmeras espécies de pequenos pássaros, e nos promontórios, que avançavam mar adentro, nidificavam aves aquáticas de todos os tamanhos, cores e formas.

Pesca e Caça

Os lagos, riachos e rios eram, naturalmente, muito piscosos. Pescavam-se peixes, geralmente com cestas de malha larga, e estes, ao lado das diversas espécies de aves, faziam parte dos alimentos mais apreciados.
Comiam, naturalmente, outras carnes também. Os animais que pretendiam pegar eram caçados geralmente ao anoitecer. Os caçadores procediam cm muita cautela, para não se carregarem de culpa. Tinham de atingir mortalmente os animais, visado com uma única flechada. A morte era sem dor, e o animal caçado nada sofria.
Não atingir logo mortalmente um animal, mas apenas feri-o, a ponto de este ainda poder fugir e esconder-se, constituía um infortúnio que todos os caçadores temiam, pois sabiam que cada sofrimento causado a animais manifestar-se-ia em seu próprio corpo... “Poder-se-ia ficar aleijado... senão naquela, numa próxima vida terrena...”

Abelhas

As abelhas ocupavam um papel importante no reino de Atlântida, pois usava-se principalmente o mel como adoçante. As abelhas eram mantidas em cestos providos de várias paredes internas que correspondia exatamente às suas necessidades. Esses cestos, de quase dois metros de alturas, podiam ser vistos em todo o país: nos campos de cultura, nos prados, nas florestas, nas margens de pantanais e de lagos... Onde quer que colocassem um cesto vazio, não demorava muito, e um enxame de abelhas ocupava-o. Por causa dos muitos “lambedores de mel”, os ursos, esses cestos tinham naturalmente de ser protegidos. Por isso eram colocados numa plataforma fixada num cavalete alto, feito de grossos troncos de árvores. Num desses troncos havia uma escada feita de corda.

O mel, bem como a cera, podia ser colhido facilmente, uma vez que todas as espécies de abelhas lá existentes possuíam ferroes bem fracos e pouco desenvolvidos. Uma picada desses ferrões não causava dor a ninguém.

Do mel faziam um excelente vinho e diversos doces. Com a cera de abelhas procediam mui cuidadosamente. Derretiam-na, misturando-a com um pouco de óleo vegetal e um ingrediente aromático; a seguir, despejavam-na em pequenos recipientes de bronze, de estanho ou de barro. Tão logo a mistura endurecesse um pouco, colocavam uma mecha no meio, formando assim uma espécie de vela.

Aparência dos atlantes

Os seres humanos que habitam a Atlântida eram, sem exceção, pessoas altas, belas e fortes. Os habitantes do norte tinham cabelos ruivos e olhos azuis cinzentos. No sul do país viam-se quase somente pessoas de cabelos pretos e olhos castanhos ou verdes. O rosto dos homens não tinha barba, pois ninguém queria ser peludo como os animais. Doenças eram praticamente desconhecidas.

Construção e decoração das casas

Já no que se relacionava às habitações, estas eram construídas com grandes blocos de pedra, sendo muito amplas. Muitas pareciam mais fortalezas e castelos do que simples residências. No norte do país havia construções feitas com velhos e grossos troncos de árvores, colocados um ao lado do outro, formando paredes impenetráveis. Também essas eram de tamanho imponente.

Os construtores eram gigantes muito dedicados àqueles seres humanos. Os blocos de pedra e troncos utilizados nas construções não poderiam ser levantados nem por dez homens. Mas os homens da Atlântida cobriam as casas sem o auxílio dos gigantes. Faziam telhados com uma camada de um metro de espessura de capim e junco. Era esse material utilizado naquele tempo longínquo. 

Os telhados das casas de Atlântida, no entanto, constituíam algo único, pois neles desenvolviam-se trepadeiras que davam flores vermelhas, azuis e amarelas, chamadas “flores do ar”, cujas ramagens, em certas épocas, pendiam até o solo. Essas ramagens, logicamente, secavam, tendo de ser podadas; logo, porem, brotavam novamente, cobrindo os telhados com seu resplendor florido. Bandos de pequenos pássaros faziam nelas seus ninhos anualmente.
As sementes dessas flores eram jogadas pelos construtores sobre o telhado pronto. Somente quando era necessário renovar um telhado, o que acontecia a cada dez anos conforme a região, eles jogavam novas sementes.

A decoração das casas era modesta, porem satisfazia plenamente as necessidades dos habitantes. As grandes mesas, baús, bancos e prateleiras de paredes, existentes em cada casa, eram de madeira pesada. Nas prateleiras colocavam cântaros, bacias, taças e pratos, geralmente de estanho, mas também muitas vezes de prata.
As camas eram feitas de um trançado de varas de salgueiro e uma certa espécie de capim, sendo fixadas em altos pés. As crianças pequenas dormiam em cestas forradas com “capim de crianças”. O aroma desse “capim de crianças” atuava de modo calmante, induzindo ao sono.
Os grandes aposentos das casas, apesar dos poucos móveis, não davam a impressão de pobres. Ao contrário. Tinha-se a impressão de riqueza e prosperidade ao entrar neles.

Aberturas estreitas e horizontais, algo distante do beiral do telhado, serviam de janelas. Todas as entradas das casas situavam-se no centro e eram voltadas para o norte. Colocavam-se as camas em posição sul-norte, de modo que a cabeça da pessoa que dormia ficava no sentido sul e os pés no sentido norte. Os pisos das casas e dos pátios eram cobertos de placas de pedra de tamanhos diferente. Utilizavam grandes blocos de corais e âmbar para decorar os pátios. 

Não faziam jardins... Aliás, eram desconhecidos. A natureza em torno constituía, pois, um único e grande jardim.
Até no mar floresciam grandes jardins que refletiam um brilho azul-avermelhado. Eram os jardins de corais, que podiam ser vistos a poucos metros de profundidade por toda a parte onde o mar era calmo. O âmbar podia ser encontrado em profusão entre as pedras e a areia cheia de conchas da costa. Também não faltavam pérolas. Havia locais  onde praticamente cada ostra continha uma pérola.
Os habitantes consideravam o âmbar um presente das sereias.
“Elas trouxeram-no de longe, para que possamos nos enfeitar com ele!” ensinavam as mães às suas filhas, quando estas, ainda pequenas, ganhavam o primeiro bracelete de âmbar.

A Confecção de Objetos

Havia muitas pessoas com capacitações artísticas entre o povo. Estas faziam obras de arte em prata, estanho, bronze e também em ouro. As mulheres usavam geralmente enfeites de prata, pérolas, âmbar e almandina vermelha.

Confeccionar obras de arte naquele tempo era trabalhoso, uma vez que as poucas ferramentas que possuíam eram bastante primitivas. Com grande paciência faziam também instrumentos musicais, como por exemplo: lur (instrumento de sopro), liras, címbalos, flautas, etc.
Em algumas regiões da costa havia ostras que pesavam vários quilos. Essa espécie de ostra não formava pérolas, porem suas cascas eram trabalhadas de tal forma que podiam ser utilizadas como pratos... Também as pazinhas, com as quais as pessoas comiam, eram feitas de uma determinada espécie de concha.

Os seres humanos de Atlântida eram trabalhadores e engenhosos. Aceitavam de bom grado e diligentemente tudo o que os grandes e pequenos mestres da natureza lhes ensinavam

Plantio e Alimentação

Na Atlântida plantava-se principalmente aveia, cevada e linho. Como o solo era muito fértil, havia sempre boas colheitas. Tubérculos parecidos com batatas cresciam em grandes quantidades nos vales úmidos. Havia também muitos cogumelos nutritivos, que cresciam nos solos cobertos de musgos das florestas. Pareciam cabeças brancas redondas, pesando até cinco quilos cada um. Castanhas e aveias faziam parte dos alimentos mais importantes.
Do leite de búfalos domesticados faziam queijo. Leite, propriamente, ninguém tomava. Nem as crianças. Os bebes recebiam leite materno até por volta dos quatro meses, sendo depois alimentados com mingau diluído de aveia, ao qual adicionavam frutas doces. O mingau de aveia constituía a alimentação fundamental dessas criaturas, desde o nascimento até a morte. Tão logo as crianças começassem a andas, misturavam ao mingau de aveia pedacinhos de peixe, avelãs socadas ou gemas de ovo de patas.

Para cozinhar utilizavam fogões de pedras, nos quais a brasa nunca de extinguia. Assavam a carne, geralmente, sobre delgadas placas de pedra engorduradas e aquecidas.

As vestimentas

A roupa dos habitantes de Atlântida era simples e funcional. Confeccionavam diversos tecidos de linho. Tecidos finos eram utilizados para as roupas das mulheres e crianças; para os homens eram empregados tecidos mais resistentes, misturando-se cânhamo e outras fibras.
No norte, onde era mais frio, usava-se tecidos de lã, retiradas de grandes ovelhas selvagens de cor marrom. Essa espécie de ovelhas não mais existe. Muitos homens usavam roupas de camurça fina. A maioria deles conhecia o modo de preparar e curtir as peles. Faziam também botas, sandálias e chapéus de couro, bem como botas e capas de pele para as mulheres.
Os vestidos pareciam camisões compridos. No entanto tinham um aspecto bonito, visto que as mulheres sempre colocavam adornos: um cinto de prata ou uma corrente de âmbar e pérolas. Muitas vezes utilizavam colares de pedras vermelhas e almandina. Mas também enfeitavam seus compridos cabelos, arrumados em tranças. E perfumava-nos com óleo de lavanda. As mocinhas usavam como enfeite de cabelo flores semelhantes às sempre-vivas. Essas flores cresciam nas rochas, apresentando as cores amarela e azul. As mulheres casadas portavam geralmente aros de prata, enfeitados com pérolas.

As Crenças

Todas as mulheres da Atlântida veneravam a deusa “Atalante”, pois desde os primórdios era conhecida com sua protetora, bem como de seus lares. Os homens, por sua vez, veneravam “Tyr”, um gigantesco ser da natureza. Quando ele lhes aparecia com sua faiscante couraça e elmo, no clarão de um relâmpago, sentiam uma alegria jubilosa. “Embla”, a senhora da Terra, era venerada por todos... Também “Rig”, o senhor dos gigantes do ar, era amado por todos. Ele e os seus dividiam, deslocavam e uniam as nuvens de tal modo que as “Hygridas”, proporcionadoras de chuva, podiam lavar o ar e as mesmo tempo conduzir à terra a necessária umidade.

Os Forasteiros

Durante longas épocas, os habitantes de Atlântida foram seres humanos simples e de saber espiritual puro, para os quais também nada era estranho no que dizia respeito aos fenômenos naturais, não importando o que fosse. Infelizmente esse saber turvou-se em muitos aspectos, devido aos forasteiros que se ficaram no país no decorrer do tempo. 
Esses forasteiros, sem exceção, traziam consigo crenças que continham sempre alguma mentira. Suas narrativas, opiniões e costumes religiosos despertaram naturalmente a curiosidade dos nativos, especialmente daqueles que devido à boa vida tinham se tornaram espiritualmente indolentes. Os costumes religiosos dos forasteiros estavam ligados a conjuração de espíritos, crença em bruxas, medo de demônios, etc... Felizmente, os que se deixavam influir por essas coisas constituíam uma minoria...


Fonte de Referência
Livro: "Atlântida, Princípio e Fim da Grande Tragédia" (páginas 13-23)
Autora: Roselis Von Sass
Editora: Ordem do Santo Graal na Terra


sábado, 26 de abril de 2014

Prosa: Realidade Surreal


O tempo se desdobra. O tempo se embaralha. Centenas de anos vêm à tona em pensamento, sem que eu possa controlar minha mente. Vejo memórias desconexas e confusas. Sinto a profundeza das lembranças despertando dentro de mim. São minhas e também não são. Também não sei mais quem sou, ou onde estou. Simplesmente vejo e sinto imagens e sensações. O tempo não existe mais para mim.


E nada do que existe agora parece real. Real? Realidade? Onde está a barreira que divide o real do imaginário? Eu não poderia dizer mesmo se soubesse. É confuso demais lidar com as palavras; prefiro sentir.


Sei que estou parada, sentada em algum lugar distante, mas de alguma maneira sei que também estou andando. Posso sentir a grama úmida sob meus pés, o vento balançando meus cabelos, a névoa fria. Respiro o aroma de alecrins. O verde ao meu redor é intenso como não existe em nosso mundo. Nosso? Meu? Onde estou? Me desespero. Sinto que algo me puxa com força, mas não quero ir. Não quero. A grama, o vento, os alecrins. Tão distantes! Me deixe ficar!


Sinto o frio abaixo de minhas mãos. Estou agarrada à cadeira onde sento. Meus dedos estão vermelhos. Me sinto sufocada. 

Eu vejo uma sala, e ao mesmo tempo a não vejo. Em minha mente, estou num lugar sombrio. Está quente e ouso vozes distantes. Vozes. Tontura, vertigem. Minha visão está embaçada. Não sinto cheiro de nada. 


Olho assustada para cima e para os lados. Estou presa dentro de um quadrado cinzento. Há janelas, há portas, mas não a saída. Onde estou? De quem são essas cabeças à minha frente, sentadas e enfileiradas em carteiras? Elas ouvem alguém. Eu também ouso essa voz, mas não compreendo o que fala. Está lá na frente. Está andando. Andando. Eu a sigo com os olhos, e me sinto tonta. Vertigem. Eu também estou numa sela. Ao mesmo tempo. 


O mundo dentro de mim entra em colapso. A grama verde virou um azulejo monocromático, branco, e o vento fresco de alecrins morreu antes de me encontrar de novo.  Estou olhando para mim para mim mesma agora: perdida, sozinha, sufocada. Todos ao meu redor parecem tão sóbrios, tão... frios. Eu também me sinto fria. Morta... Eu fujo em pensamento, mas não saio do lugar.


Então eu me vejo realmente saindo de lá. Não diga que estou fugindo, eu sei que estou. Por isso eu corro, mas os corredores me perseguem, e as escadas querem me derrubar. Olhares de reprovação, sorrisos de deboches. Quem são eles? Parem de me olhar! Meus cabelos grudam em meu rosto. Estou chorando.


Sozinha, num canto que proclamei meu, um suspiro escapa do fundo de minh'alma. Então desabo no chão. Apoio a cabeça nas prateleiras cheias de vida e conhecimento, como se a energia delas pudessem me reequilibrar. Paro de tremer. Seco as lágrimas. Em minhas mãos eu vejo uma folha, um lápis e um vazio. Uma inquietação. E quando escrevo, o silencio se rompe.

 As palavras ventam e tem cheiro de alecrim. Cada letra derrama magia, em cada parágrafo mil anos de luz. Luz, em mim, novamente. Luz!

 Lembranças, memórias e jardins de flores.
 Mergulho dentro de mim mesma, e não sei se quero sair.