quinta-feira, 12 de julho de 2018

O uso de arquétipos pela indústria cultural na construção de animes e mangás

Imagem: https://wallpaperwire.com/todoroki-shouto-anime-wallpapers-2-2/


    Arquétipos é um tema que me fascina há alguns anos, e não é a toa que escolhi esse tópico para dar embasamento aos meus estudos, não apenas em literatura – minha área de atuação – mas também em história e psicologia. Bom, partindo desse ponto, durante uma apresentação de pós-graduação, eu e minha amiga Amanda elaboramos um trabalho sobre “o uso de arquétipos pela indústria cultura na construção de mangás e comics”, que, diga-se de passagem, ficou muito bom. Assim, eu tive a ideia de trazer um pouco desse material para o blog. Como eu não tenho tanto domínio sobre comics, resolvi focar somente em animes e mangás – minhas paixões há mais de 10 anos.
     
    Se você gosta de animes e mangás, provavelmente já percebeu que muitas obras de determinados gêneros possuem semelhanças bem específicas entre si. Na Literatura Comparada nós analisamos autores, contextos e obras diversas. Também é possível fazer o mesmo com filmes, séries e quadrinhos... e por que não, com animes? Se dissecarmos as histórias, veremos que muitas possuem a mesma essência; mas então, por que algumas fazem um sucesso estrondoso - como Boku no Hero Academia, por exemplo – e outras são alvo de críticas ferinas, como Black Clover?

     Pois bem, vou dar duas palavras-chave: indústria cultural e arquétipos.

  

Quer entender um pouco mais como isso funciona? Siga em frente e vamos discutir a respeito!




 O que é industria Cultural?

    Trata-se da conversão da cultura em mercadoria.

  Utilizamos o termo Indústria cultural para designar o modo de fazer cultura, a partir da lógica da produção industrial. Significa, portanto, que se passou a produzir arte com a finalidade do lucro.

  Seja em filmes, séries, animes ou games, é necessário agradar o maior número de pessoas, e existe uma fórmula bem específica para tal: o uso de arquétipos. Assim, criam-se alguns padrões, como o vilão, o mocinho, o mentor, o traidor; as histórias de amor com os finais felizes; as aventuras e epopeias. E no final das contas, quando mal aplicada, toda a produção artística fica padronizada e não há espaço para o novo.

    Segundo Edgar Morin, em seu livro “Cultura de Massas no século XX: o espírito do tempo, neurose.”: é no jogo entre o real e o imaginário, bem como a ação dos arquétipos que surge o grande desafio da industria cultural: superar a contradição entre suas estruturas burocráticas-padronizadas e a originalidade do produto que ela deve fornecer.


· O que são arquétipos?

O termo “arquétipo” tem suas origens na Grécia antiga, as palavras raiz são archein que significa “original ou velho” e typos que significa “padrão, modelo ou tipo”, o significado combinado é “padrão original” do qual todas as outras pessoas similares, objetos ou conceitos são derivados, copiados, modelados, ou emulados.

O psicólogo Carl Gustav Jung usou o conceito de arquétipo em sua teoria da psique humana; ele acreditava que arquétipos de míticos personagens universais residiam no interior do inconsciente coletivo das pessoas em todo o mundo, arquétipos representam motivos humanos fundamentais de nossa experiência como nós evoluímos consequentemente eles evocam emoções profundas.

Imagem: http://paulorogeriodamotta.com.br/os-arquetipos-na-psicologia-analitica/


· Diferença entre arquétipos e estereótipo

Muitas pessoas confundem “arquétipos” com “estereótipos”, porém ambos os conceitos são bem diferentes. 

Um arquétipo é um modelo base que serve de origem para algo maior e, portanto, tende a ser expandido. Por outro lado, estereótipos são características pré-julgadas que limitam algo maior e, assim, reduzem sua interpretação. 

Muitas vezes se desenvolve um arquétipo pensando em um estereótipo, o que resulta em um clichê.

Por exemplo: consideramos como “nerds” as pessoas que gostam de estudar. Existem várias pessoas que gostam de ler e estudar, independente de sua aparência física e gostos pessoais, mas se você pensar em um nerd espinhento, com óculos fundo de garrafa e vestes antiquadas... Aí você está desenvolvendo um estereótipo!

Nos animes nem sempre um personagem com óculos significa um "nerd" no sentido estereotipado como conhecemos. Duvida? Pesquise o anime "Sakamoto desu ka" e veja por conta própria! 

Imagem: https://hermionesknapsack.wordpress.com/tag/megane/


· Arquétipos na construção de personagens

Imagem: http://espacomaedoceu.blogspot.com/2018/06/os-12-arquetipos-segundo-carl-gustav.html

Durante o processo de criação de um personagem, é comum os autores utilizarem de arquétipos na construção de sua personalidade. Na escrita, eles funcionam como modelos iniciais, contendo características básicas que formam o rascunho de uma determinada personalidade e que servem de ponto de partida para a elaboração de personagens. Um personagem não precisa necessariamente ter apenas um arquétipo; na verdade, quanto mais arquétipos darem embasamento à sua personalidade, mais complexo e imprevisível ele será – que é ponto positivo na trama.

Compreender os arquétipos de uma obra é uma das formas mais comuns de análise literária. Um arquétipo é um padrão, um tema universal que se manifesta de forma diferente e individual, cuja mensagem é significante para o coletivo. Arquétipos estão presentes em livros, filmes, seriados, HQs, mangás, etc.

· Os principais arquétipos em mangás e animes


1 – O Herói

É o personagem central do seu romance. Geralmente a história será contada sob a perspectiva dele, para que os leitores simpatizem com a sua jornada.

Ele geralmente começa como uma pessoa normal que vai crescendo no decorrer da jornada. É normal que ele tenha imperfeições e defeitos. O ideal é que ele triunfe ao fim do romance, mesmo que a vitória custe sua vida.

·      Dentro do universo dos mangás, o gênero shounen (histórias voltadas para aventura, comédia e esportes) sempre apresenta personagens com o arquétipo do heroi. Geralmente são virtuosos, que agem pelo bem e em prol de outras pessoas, possuindo grande altruísmo, que pode ou não ter os ditos "superpoderes".

Exemplo: Izuku Midoriya e All Might (Boku no Hero Academia), Asta (Black Clover), Naruto, Luffy (One Piece), Ichigo (Bleach), Natsu (Fairy Tail), Hinata (Haikyuu!!)

Imagem: https://wall.alphacoders.com

·     Dentro do gênero Maho Shojo (histórias de aventura, cujas protagonistas são jovens meninas com capacidades sobre-humanas que lutam contra o mal) também temos o arquétipo da heroína: como em Sailor Moon e Sakura Card Captors.
 
Imagem: http://www.starkafterdarkonline.com/?p=10560

2 – A Sombra

Representa a escuridão para o herói. Geralmente é um reflexo do que o herói pode se tornar se for levado para o Lado Negro. Algumas vezes a Sombra e o Herói compartilham uma conexão.

Esse arquétipo é geralmente usado para o antagonista do romance. A Sombra costuma ser um personagem sombrio, ameaçador e perigoso que represente perigo para o herói.

·         Nos  shounen, é comum que as “sombras” sejam personagens bem próximos dos protagonistas, que podem – ou não – se modificar ao longo da história. 

     Como exemplo, temos: Sasuke Uchiha (melhor amigo e rival de Naruto; tenta matá-lo inúmeras vezes), Bakugō Katsuki – de Boku no Hero Academia - amigo de Midoriya - invejoso e violento, procura sempre se mostrar superior ao protagonista através da força; Ikki de Fênix em Cavaleiros do Zodíaco – surge como vilão e depois se torna grande amigo de Seiya.

Imagem: https://www.deviantart.com/oxelon/art/Naruto-X-Sasuke-Full-HD-Wallpaper-449103847


3 – O Mentor

É um personagem sábio que ajuda o Herói em sua jornada. Ele o ajuda a se transformar de uma pessoa comum para um campeão.

O Mentor é uma ferramenta útil para o narrador pois pode levar o Herói a novos níveis de conhecimentos e habilidades. Algumas vezes até dá presentes. É comum também que o mentor abandone o personagem em algum ponto da história para que ele possa aplicar o que aprendeu.

O Mentor é tipicamente um personagem de idade avançada para carregar sabedoria.

·  Nos shounen é bem comum a figura de “senseis” e mentores que auxiliam os personagens. Em Naruto, temos os professores Jiraya e Kakashi; Em Boku no Hero Academia, o heroi All Might; e em Samurai X, o mentor Seijūrō. Todos ajudam os heróis a se tornarem mais fortes.

Imagem: https://anime.goodfon.ru/other-anime/wallpaper-naruto-art-masashi-kishimoto-naruto-uzumaki-jiraya-ninja-uch.html

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Já nos mahou shojo, a figura do mentor é personificado nos “mascotes” (bichinhos com poderes mágicos que raramente participam de combates, em vez disso, aconselham e ajudam a treinar as personagens no uso das suas habilidades. Como exemplos, temos Kero (de Sakura Cardcaptors) e Luna (Sailor Moon).

Imagem: http://pt.fanpop.com/clubs/sailor-moon/images/41037325/title/usagi-luna-photo


4 – O Guardião do Limiar

É um personagem que serve como obstáculo entre o Herói e o próximo estágio da sua busca. Suas motivações podem ser variadas. Ele pode ter sido enviado pelo vilão ou agir por conta própria. Independente disso, seu papel na história é desafiar o herói e torná-lo mais forte no processo.

Exemplos:
·   Em animes/mangás shounen, temos Os doze Cavaleiros de Ouro, de Cavaleiros do Zodíaco, que impedem a passagem dos Cavaleiros de Bronze através dos santuários – mais tarte, eles acabam ajudando Seiya e seus companheiros nos campos Elíseos.

Imagem: https://aminoapps.com/c/cavaleiros-do-zodiaco/page/blog/cavaleiros-de-ouro-pt1/pN3N_a0iQuN18MKMpdaNao1eXob05k7pR

·         Em maho shoujo: na metade de Sakura Card Captor, o personagem Yue surge com objetivo de testar a força da protagonista, ameaçando destruir todas as suas conquistas; e uma vez derrotado, ele se torna seu protetor.

Imagem: https://www.google.com.br/imgres

5 – O Metamorfo

É o personagem que cria uma mudança dramática na história. Ele pode repentinamente trair o Herói, ou ser um inimigo que vira aliado. Seu papel é fazer seu romance menos previsível.

Exemplos:
·         Shounen: Orochimaru, em Naruto, sempre criou rupturas na história, traindo os personagens e instigando a guerra; no final, virou aliado do protagonista.


Imagem: https://criticalhits.com.br/episodio-desta-semana-de-boruto-naruto-next-generations-confirma-plano-de-orochimaru/

·         Mahou shoujo: o Mago Clow, em Sakura Card Captors, sempre oscila entre vilão e aliado, sem nunca revelar suas verdadeiras intenções; mas para a protagonista, ele é amigo.


6 – O Trapaceiro

É um personagem sagaz que busca perturbar a ordem social. Ele traz caos ao mundo do Herói e pode trazer mudanças significativas. Pode servir de alívio cômico ou como vilão.

Suas motivações podem variar muito, desde simples divertimento até intenções malignas.

·         Exemplo em  shounen: Izaya – de Durarara! – sociopata, Izaya manipula todos os personagens com o único intuito de criar o caos e a desordem.


http://www.postavy.cz/izaya-orihara/

7 – O Aliado

É o personagem que ajuda o Herói a superar os obstáculos da jornada. Não é incomum que o Herói perca algum aliado durante a jornada. Em alguns casos o interesse romântico do Herói pode recair sobre o Aliado.

Exemplos:

·         Nos shounen, o protagonista sempre conquista inúmeros aliados ao longo da jornada. Como os 4 Cavaleiros de Bronze que se tornam amigos de Seiya, em Cavaleiros do Zodíaco.


https://www.cavzodiaco.com.br/servicos/galeria-de-imagens/galeria-dos-fas/papeis-de-parede-wallpaper

·         Nos maho shojo, também é comum que a protagonista crie vínculos com outras guerreiras, como as 4 sailors que lutam ao lado de Sailor Moon.

https://www.otakupt.com/

· Arquétipo de Circunstâncias


A TarefaQuando uma ou mais personagens têm de realizar uma tarefa de proporções monstruosas.

Exemplo:
·          Em HunterxHunter, a cada arco Gon e Killua tem que enfrentar alguma tarefa de extrema dificuldade: começam pelo exame Hunter, passam para a saga de Greed Insland e chegam enfim ao arco das quimeras. Todas essas tarefas envolvem, além de um amadurecimento físico dos personagens, uma imensa pressão psicológica que dá todo um embasamento à trama.   


Imagem: http://comicbook.com/anime/2017/12/20/hunter-x-hunter-greed-island-card-set-trailerl/


A Missão – Quando a personagem procura algo, seja consciente ou inconscientemente. As suas ações, pensamentos e sentimentos centram-se na concretização desse objetivo.

Exemplo:
·         Em Naruto, a grande missão do protagonista desde o princípio é se tornar o líder de sua vila; para tal, ele se torna forte o suficiente e conquista amigos e aliados durante toda a sua trajetória; já Sasuke, em contrapartida, possui a missão de vingar seu clã, recorrendo à método muitas vezes escusos para chegar ao seu objetivo.
·         Em HunterxHunter, a missão principal de Gon – o protagonista - é encontrar seu pai e descobrir suas razões para tê-lo abandonado na infância.
·         Em Black Clover, Asta e Yuno tem o sonho de assumir o posto de "Rei-Mago".


Imagem: http://twincitiesgeek.com/2018/03/black-clover-might-feel-cliche-but-its-still-a-fun-ride/

Em suma, “a missão” é o combustível que move os personagens durante sua trajetória.

A Viagem – A viagem envia o herói em busca de algo que restabeleça a ordem e a harmonia, forçando-o a passar por atribulações que o levem a aceitar a sua responsabilidade pessoal, para que possa retornar ao local de onde partiu.

Exemplo:
·          No final do mangá, Naruto parte para a terceira guerra ninja, arriscando sua vida para lutar contra Kaguya e proteger a todos; uma vez vitorioso, o protagonista retorna à Konoha com a paz restabelecida, e ele, anos mais tarde, assume como líder e se torna o 7º Hokage.  

Imagem: https://wallpapertag.com/hokage-naruto-wallpaper


O Fim da Inocência – A personagem recebe uma lição da vida, seja através duma experiência violenta, sexual ou qualquer outra.

Exemplo:
·          Provavelmente o momento mais triste de HunterxHunter: durante a saga das quimeras, Gon descobre que seu mentor foi transformado em uma marionete sem alma. Assim, levando ao extremo todas as características até então positivas de sua personalidade – como otimismo, lealdade e perseverança -, Gon fica obcecado com a crença de que pode salvar seu professor, ignorando o fato de que o mesmo já estava morto há muito tempo. Com isso, o protagonista se perde em meio ao ódio e à frustração, assassinando de forma cruel a quimera que arruinou a vida de seu mentor; e mais do que isso, a imagem heróica do personagem se torna tão nebulosa a ponto de quase não existir mais.

·         Outro exemplo, mais recente, é o de Boruto no exame Chunnin: ao utilizar meios ilícitos para cumprir a prova, o protagonista é descoberto e perde sua dignidade como shinobi. Assim, uma vez exposto como trapaceiro, ele perde o respeito da vila, sendo alvo de chacota pela prateia inteira; seus amigos, bem como seus pais e sua irmã mais nova, também ficam decepcionados com sua atitude. E para piorar toda a situação, nesse momento a vila é atacada por inimigos e Boruto se vê completamente impotente diante da ameaça dos vilões; seu pai é sequestrado, sua mãe fica fica ferida em combate e ele nada pode fazer.  


Imagem: https://criticalhits.com.br


Conflito entre Pai e Filho – Tensão derivada do afastamento entre pai e filho.

Exemplo:
·         Em Boruto, toda a estrutura do início da narrativa é voltada para o abandono parental do protagonista, cujo pai é o líder da vila e não dispõe de tempo para a família; assim, nutrindo profundo rancor de Naruto o garoto cresce menosprezando o pai.
·         Em HunterxHunter, o pai de Gon demonstra explicitamente não querer contato com filho, agindo indiferentemente do começo ao fim da história; mesmo assim, o protagonista nunca desiste de querer se aproximar pai.

Imagem: https://www.tumblr.com/search/ging%20freaks


·         Arquétipo da jornada do heroi

Provavelmente o maior paradigma de todos os tempos, a Jornada do Herói, também chamada de Monomito, é uma combinação de arquétipos que todas as estórias seguem, em um nível maior ou menor. Citada pela primeira vez no livro (O herói com mil faces) de Joseph Campbell, é constituída pelas seguintes etapas:

Mundo comum: o herói está na sua zona de conforto, vivendo sua vida normalmente.
O chamado da aventura: um problema lhe é apresentado: a aventura ou o desafio. O convite é feito.
A recusa à aventura: o herói nega enfrentar o desafio, normalmente por medo ou falta de motivação para sair da zona de conforto.
O encontro com o mentor: ele encontra um mestre que o faz aceitar o "chamado" e o prepara para a aventura.
Cruzamento do primeiro limiar: o herói deixa o mundo normal, sai da zona de conforto e adentra o universo mágico, especial ou fantástico.
A barriga da baleia: encontra aliados, provações e inimigos, é testado, aprende como funciona a terra especial e obtém êxito em suas tentativas.
Provação traumática: ocorre a maior morte, perda, crise ou dor da história.
Ganho: o herói enfrentou o problema e derrotou seu medo. Agora, recebe uma recompensa, material ou abstrata, o "elixir".
Caminho da volta: o dito herói deve voltar para o mundo comum.
Renascimento: novamente enfrenta uma situação difícil e tem de usar tudo que foi aprendido.
Retorno com o elixir: regressa ao mundo comum e utiliza o que conseguiu para ajudar as pessoas por lá.



· Qual a conexão entre as HQs, a indústria cultural e os arquétipos?

As HQs são produtos da indústria cultural que, como tanto outros, buscam entreter seus leitores ou consumidores. Todavia, as histórias em quadrinho se encontram diante de um paradoxo: de um lado, o trabalho artesanal de produção de desenhos despretensiosos; e do outro, uma indústria que transforma tudo em produto. O mesmo ocorre com os animes.

É válido lembrar também do caráter universal dos produtos da indústria cultural. Pois levando em consideração o objetivo de atingir o maior número de consumidores, os produtos culturais precisam ter uma “linguagem acessível a todos”: ai é que entram os “arquétipos”, representações do inconsciente facilmente compreendidas em diversas culturas.

Imagem: https://www.flickr.com/photos/41622708@N00/136373317


· Considerações finais

    Como qualquer outro fã de animações japonesas e mangás, eu já me perguntei porque determinadas histórias, tão parecidas entre si, despertavam nos fãs sentimentos tão adversos. E levando em consideração tudo o que foi dito aqui, eu só chego à uma conclusão: a resposta está no bom ou no mal uso dos arquétipos

    Certamente que, quando falamos em animes, temos que considerar que vários fatores fazem parte do resultado final de uma obra, tais como trilha sonora, dublagem, edição, direção, computação gráfica, etc. Mas nada disso pode tornar uma obra grandiosa sem um roteiro bem escrito e personagens que cativem o público. Pois tudo – repito – tudo, começa a partir de um texto, inclusive os mangás. E os autores, embora conheçam os arquétipos, nem sempre fazem bom uso deles e acabam caindo naquilo que todos detestamos: os clichês. 

    “Clicheismo” soa muitas vezes como falta de criatividade ou originalidade; é aquele lugar comum que todos conhecemos e que não traz nada de novo. Não é ruim, mas também não pode ser considerado como bom. É simplesmente neutro.

    As historias que fazem sucesso são justamente aquelas que saem da superficialidade e criam algo novo em cima do que já existe. Quer exemplos? Posso citar o elemento surpresa e as quebras de expectativas em Shingeki no Kyojin; as rupturas psicológicas nos personagens de Tokyo Ghoul; a riqueza de detalhes na contextualização de Naruto; a inversão e o extremos das personalidades em HunterxHunter; é a metaforização da inocência x maturidade presente em Sakura Card Captors; a profundidade dramática em Elfen Lied, etc. Também não posso deixar de citar a paródia ácida que dá embasamento à One Punch Man, que brinca com os clichês de modo inteligente e cômico, sem perder a profundidade nos momentos certos.

     Por fim, é claro, para finalizar: Boku no Hero Academia. Talvez uma das obras mais inteligentes da atualidade, BNHA usa e abusa de TODOS os arquétipos de modo explícito, construindo personagens que nem em sonhos chegam perto do que possa ser chamado de clichê. Como? É simples: eles nunca são aquilo que aparentam

    Veja bem, o grande mentor e herói All Might, que nos impressiona com sua força imensurável, na verdade possui um segredo: sua forma verdadeira é a de um homem fraco e esquelético. O “suposto” antagonista da história, Bakugo, que representa todas as características explícitas de um vilão, como egocentrismo, maldade e falta de altruísmo, na verdade sonha em ser um herói como All Might. Todoroki, que possui inicialmente um lado obscuro e sombrio, demonstra ao longo da história uma personalidade fragilizada e ao mesmo tempo, gentil. Em suma, cada personagem se desdobra em mais de um arquétipo, quebrando nossas expectativas iniciais e tornando o enredo imprevisível. Isso sem contar que cada arco discorre de modo rápido, sem enrolação, mostrando exatamente aquilo que um fã de shounen quer ver: boas lutas, ação e uma história bem contada – sem fillers.
    
Imagens: https://www.wallpapersrc.com/wallpaper/bnha-characters-my-hero-academia



Referências:

·         MORIN, Edgar. Cultura de Massas no século XX: o espírito do tempo, neurose. São Paulo: Forense, 1967.  
·   JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo / CG. Jung. Trad. Maria Luíza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2000.


Dicas de leitura:

Sobre Indústria cultural
·         ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 2001.

Sobre arquétipos
·         JACOBI, Jolande. Complexo Arquétipo Símbolo na Psicologia de C. G. Jung. Trad. de Margit Martincic; prefácio de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 1957.
  MARK, Margaret; PEARSON, Carol S. O Herói e o Fora-da-lei: como construir marcas extraordinárias usando o poder dos arquétipos. Trad. Merle Scoss. São Paulo: Editora Cultrix, 2012.
·         CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Trad. Adail Ubirajara Sobral. 10º Edição. Editora Pensamento. São Paulo, 2013.